Associação da Rede Unida, 13º Congresso Internacional Rede Unida

Anais do 13º Congresso Internacional da Rede Unida

v. 4, Suplemento 1 (2018). ISSN 2446-4813: Saúde em Redes
Suplemento, Anais do 13ª Congresso Internacional da Rede UNIDA
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TERRITORIALIZAÇÃO EM SAÚDE: MOVIMENTOS DE DESCONSERTÂNCIA, DESCOBERTA E ALEGRIA DE UM TERRITÓRIO VIVO
Joélia Oliveira dos Santos, David Gomes Araújo Júnior, Mônica dos Santos Ribeiro, Normanda de Almeida Cavalcante Leal, Caroline Rillary Vasconcelos Farias, Isabele Mendes Portella, Fablicia Martins de Souza, Elaine Cristina Mendes de Araújo

Última alteração: 2018-01-23

Resumo


O presente trabalho verssa sobre a territorialização em saúde com o objetivo de apresentar a experiência da equipe multiprofissional da Residência Multiprofissional em Saúde da Família (RMSF) em articulação com a Estratégia Saúde da Família (ESF) na cidade de Sobral-CE.

O processo de territorialização acontece anualmente na ESF da cidade de Sobral-CE em que as equipes de referências e equipe multiprofissional da RMSF - sendo a ultima composta por enfermeiro, assistente social, fisioterapeuta, nutricionista, dentista, terapeuta ocupacional, educadora física e psicóloga - se articulam para entrar em contato com a realidade cotidiana. Trata-se de uma ferramenta na qual as equipes através de um instrumento de territorialização buscam conhecer tanto as dimensões físico-geográfico quanto social, histórico, cultural, simbólicos, subjetivos e políticos que compõe o território adscrito da ESF dos Centros de Saúde da Família (CSF) da Expectativa e do CAIC.

A partir do instrumento, busca-se refletir as necessidades de saúde e construir estratégias de enfrentamento. Para tanto, destacam-se algumas etapas, sendo que: a etapa 1 busca resgatar e reconstruir a história social do território, bem como de seus moradores, possibilitando aos trabalhadores de saúde entrar em contato com os eventos e processualidade que produziram o território atual na qual a ESF se insere; etapa 2, perfil territorial-ambiental em que as dimensões físico-geográficas se evidenciam como, por exemplo, a extensão territorial de adscrição, perímetro urbano ou rural, áreas de lazer, áreas de risco ambiental, bem como a localização da rede de atenção à saúde, os equipamentos e serviços sociais existentes no território; etapa 3, perfil demográfico sócio-econômico e cultural, onde é possível identificar mais detalhadamente dados sobre a população local, as famílias, o número de usuários do Sistema Único de Saúde (SUS), como se dão as formas de acessos aos serviços de saúde, educação e equipamentos sociais, assim como sobre as condições de renda e as situações de riscos e vulnerabilidades sociais em que as famílias estão expostas com ênfase para situações de violência e pobreza. Destacam-se ainda nessa etapa os aspectos históricos e culturais a partir dos grupos comunitários presentes e dos espaços de cuidado desenvolvidos no território;

Na etapa 4, destaca-se o perfil institucional sobre o CSF e seus modos de funcionamentos, as áreas de cobertura, as equipes de referência e de apoio, incluindo as equipes de RMSF e Núcleo de Apoio a Saúde da Família (NASF); etapa 5 participação e controle social com ênfase para o conselho local de saúde que se configura como espaço democrático na qual se problematiza as situações de saúde das pessoas do território, as condições de existências e problemáticas enfrentadas, ou seja, espaço de luta e reinvindicação por modos de vida mais justas e menos desiguais. Para isso, destaca-se a importância em identificar as lideranças comunitárias e os movimentos engendrados pelos coletivos no território, sobre as fragilidades, desafios e potencialidades dos mesmos;

E, finalmente a etapa 6, tem-se o perfil epidemiológico que possibilita uma melhor visualização da situação de saúde da população, com ênfase a saúde da criança, da mulher, do adolescente, do idoso, além de dados acerca da mortalidade, as principais causas de óbitos na população geral no território, sobre natalidade, doenças infecciosas e transmissíveis e sobre as condições crônicas.

Essas são algumas das principais etapas que constituem o instrumento que auxiliam as equipes no processo de territorialização, posto que a partir do contato com a realidade e mapeamento das situações e dimensões que constituem o território possibilitam visualizar, problematizar e analisar o território sanitário e o cotidiano na qual as vidas das pessoas se tecem. Tal ferramenta potencializa a construção de estratégias de gestão e de planejamento para a inserção e atuação das equipes, de modo que os indicadores de saúde e os determinantes sociais passam a fazer parte das formas como as equipes compreendem e desenvolvem as ações de saúde e cuidado.

Esse processo possibilita contato com o território cotidiano, que passa a ser refletido e vivido a partir de suas fragilidades, potencialidades e modos de organização social e cultural, isto é, a partir de uma perspectiva contextualizada e histórica que reflete e respeita os acordos e modos na qual as pessoas se constroem em seus fluxos de existência.

Assim, tanto o modelo de gestão e atenção é repensado, como a própria ESF e as redes que constituem o cuidado e suas diversas formas existentes no território. Principalmente quando tomamos como referência nossa experiência de territorialização na Expectativa e no CAIC em que os processos de saúde, adoecimento e cuidado se (re)inventam a medida que entram em contato com o cotidiano da vida, em articulações diversas, atravessadas principalmente pela cultura popular.

Em nosso território se destacam as práticas populares de saúde engendradas por rezadeiras/benzedeiras. Atores sociais que representam no território expressões de fé e espiritualidade como formas de cuidado e saúde. Pessoas respeitadas e protagonistas na produção de práticas de cuidado para além do modelo biomédico e hospitalocêntrico.

A territorialização tensiona não apenas o contato com o território, mas com suas problemáticas, desafios e potencialidades, assim como com as pessoas que o constituem, que adoecem, sofrem, sonham e inventam formas de viver e de cuidar de si e dos outros. E que, portanto, podem possibilitar as equipes de saúde novos ensaios das práticas, em que a dimensão da clinica do cuidado se amplia e se contextualiza com a vida que se tece nos territórios. Em que os processos de adoecimento, saúde e cuidado escapam a lógica de saúde como ausência de doença, pois, as pessoas não apenas adoecem, mas adoecem de determinados modos, em realidades singulares, em territórios geográficos, simbólicos e existenciais.

Assim a territorialização em saúde vai se configurando como estratégia potencializadora do fazer da ESF na medida em que se torna ação, vivencial e em contato com a vida das pessoas.

O processo de territorialização em saúde possibilitou tanto as equipes de referências quanto à equipe multiprofissional da RMSF, uma experiência orgânica de contato, exploração e entrecruzamento com as diversas dimensões do território vivo. Configurou-se como movimento de atravessamentos e engendramentos em que profissionais de saúde se encantam e se encontram com os desafios e possibilidades múltiplas e heterogêneas do processo de produção e (re)invenção do cuidado em saúde contextualizado com o território, suas paisagens, atores e necessidades. Portanto, a territorialização nos alerta para a produção de saúde e cuidado em que a vida cotidiana no território é que produz pistas de como o trabalho da ESF deve se construir.

Palavras-chave


Territorialização em Saúde, Residência Multiprofissional em Saúde da Família, Estratégia Saúde da Família.