Associação Brasileira Rede Unida, 13º Congresso Internacional Rede Unida

Anais do 13º Congresso Internacional da Rede Unida

v. 4, Suplemento 1 (2018). ISSN 2446-4813: Saúde em Redes
Suplemento, Anais do 13ª Congresso Internacional da Rede UNIDA
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O Apoio Institucional para Além do Arranjo Organizacional: um dispositivo de construção de coletivos e de enfrentamentos micropolíticos para sustentabilidade do SUS.
Ana Carolina Rios Simoni, Claudia Tallemberg, Elissandra Siqueira Silva, Károl Veiga Cabral, Paula Emília Adamy, Simone Alves Almeida

Última alteração: 2018-01-25

Resumo


Compartilhamos neste trabalho construções ético-políticas produzidas a partir de experiências na gestão estadual da Política de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do RS, entre 2011 e 1014, tendo o apoio institucional e a educação permanente em saúde como ferramentas metodológicas de aproximação e invenção junto aos municípios, seus territórios e atores, para construção de redes de atenção à saúde capazes de acolher existências singulares. O apoio institucional para a construção de linhas de cuidado nas regiões de saúde abriu possibilidades para superar a divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual e a reprodução alienada de práticas, apostando na força dos espaços de formação do agir em saúde no cotidiano, para ampliar a potência e diversificar as ferramentas de análise e intervenção das equipes nas suas realidades. Desta forma, foi concebido não apenas como um arranjo organizacional, mas sobretudo como um operador de mudanças nos processos de trabalho, pautando-se pela indissociabilidade entre as formas de cuidar, as formas de fazer gestão e a política, trazendo à tona o próprio caráter do SUS em sua dimensão híbrida entre a produção da saúde, a cidadania, a inclusão social e a garantia de direitos, tomando a defesa da vida como valor inestimável enquanto projeto societário e civilizatório, contra o sistema de capitalização e gerenciamento de corpos disciplinados e saudáveis – daí sua radicalidade política.

O apoio institucional como dispositivo acompanhou o processo implementação de um projeto estratégico de governo, nomeado Linha de Cuidado em Saúde Mental – o cuidado que eu preciso, que tinha como um dos objetivos destinar financiamento estadual complementar e de caráter indutivo para a ampliação e diversificação dos serviços territoriais de atenção psicossocial, especialmente com foco na ampliação do acesso e da qualidade do cuidado em Saúde Mental Álcool e Outras Drogas na Atenção Básica. Era preciso fomentar processos de trabalho em rede, desconstituindo fluxos enrijecidos, pelos quais os usuários migram de internações em hospitais para longas permanências institucionais em comunidades terapêuticas ou asilos de idosos (instituições de longa permanência para idosos - ILPI), onde são tratados como cérebros e personalidades disfuncionais, que portam o estigma da periculosidade. Tratava-se de desconstruir as velhas novas formas de tratamento moral, que ganhava as tintas do século XXI, como no emblemático discurso da “epidemia do Crack” – argumento que faltava para justificar a face contemporânea da grande internação.

“SUS pelo Cuidado em Liberdade” foi o norteador ético que orientou as ações empreendidas no bojo deste projeto, em contraposição às iniciativas de recolhimento compulsório, internação de longa permanência, cujo objetivo não é outro senão tirar a dor dos outros da nossa vista. Tendo em conta os limites da regionalização, estabelecemos referências de apoiadores institucionais por macrorregião com agenda periódica de visita e construção com os colegas gestores regionais, secretários municipais e trabalhadores das redes, tendo o apoio institucional como ferramenta para desencadear e sustentar processos de criação ou reestruturação de serviços de saúde mental na direção da singularização das terapêuticas, agenciamento de laços comunitários e interface da saúde com a cultura. Nas circulações que fizemos pelo estado, nas agendas de apoio, conhecemos diversos serviços de Atenção Psicossocial e pudemos escutar muito das lógicas que neles operam.

Testemunhamos a presença forte dos estigmas associados ao “doente mental” – o da incapacidade, mas, principalmente, o da periculosidade, que segue operando com força nas relações da sociedade com a loucura. Ousar apostar nas potencialidades daqueles considerados desviantes, incapazes ou perigosos era um ato de coragem em diversos cenários. Reféns de seus preconceitos e valendo-se do senso comum ou de discursos que se dizem científicos, muitos gestores e trabalhadores não conseguiam enxergar para além da imagem de seus próprios parâmetros, de forma que o apoio institucional aparecia como oferta de um espaço-tempo para desconstrução destes escudos que operam em cada um de nós, assim como de invenção de outras formas de trabalhar em equipe e de cuidar. Neste sentido, colocava-se com força nestes lugares do apoiar a aposta de que os profissionais de saúde podem constituir percursos singulares de formação e modos inventivos de trabalhar, mas precisam de companhia, suporte nesta empreitada de problematizar o que há de institucional e institucionalizador nas práticas, inclusive na gestão, para acolher a diferença e construir pertencimento na produção micropolítica, tecendo uma sustentabilidade coletiva.

Recolhemos, nestes percursos, múltiplas vivências e construções que seguem reverberando em nós dentre as quais se destacam três experiências paradigmáticas que se iniciaram como agenda de gestão circunscrita a um período de governo, mas que resistem e persistem em seu próprio curso num para além de uma pauta governamental. Tomamos como analisadores estas três experiências do campo sanitário, político e social que, com muitas dificuldades e atravessamentos, continuam persistindo por força de um coletivo heterogêneo – agora capilarizado em diferentes espaços de gestão, formação, atenção e controle social, unido por enlaces de afeto e compromisso ético-político – que segue perpetrando a defesa da vida e do SUS. São elas: as ações de construção de rede de cuidados psicossociais frente ao evento do incêndio da boate Kiss; o processo de desinstitucionalização em ILPI; e a implementação da Política Estadual de Redução de Danos. Nestes contextos, a função do apoio institucional foi tomada em sua conformação rizomática, acêntrica e não hierarquizada, muito embora contenha os arranjos hierarquizados e de enrijecimento das práticas, mas vazando-os, onde a micropolítica dos encontros com e entre os trabalhadores pode produzir, para além da gestão, processos de autonomização na produção do cuidado.

O apoio institucional como ferramenta para a gestão estadual da saúde mental foi, sobretudo, nestas três experiências, um dispositivo de produção de novas relações entre os atores sociais envolvidos nos processos de construção da reforma psiquiátrica no Estado, de mudança de modelo de gestão e atenção, rompendo com lógicas hierarquizadas, centralizadas e especializadas, seja no contorno das ações de desinstitucionalização, seja nos cenário de intensa dor e perplexidade deixado pela tragédia da Boate Kiss em Santa Maria, seja na construção delicada e cotidiana da redução de danos como estratégia e diretriz para o cuidado no campo do uso problemático de drogas. Trazendo para a gestão, os princípios do cuidado no SUS, tais como vínculo, acolhimento, responsabilização compartilhada, fomentamos a produção de uma rede viva de cuidados, que para além de um governo ou de outro, ainda pulsa e produz suas ressonâncias. Aprendemos juntos – e com aqueles com quem nos encontramos e compartilhamos o trabalho de desinstitucionalização, de atenção psicossocial em situação de desastres e de fortalecimento da redução de danos – novas formas de se relacionar e de produzir saúde, vivendo então, o desafio da luta antimanicomial e da construção do SUS nas práticas cotidianas do fazer na gestão em saúde mental.


Palavras-chave


Apoio Institucional; Saúde Mental; Dispositivo