Associação da Rede Unida, 15º Congresso Internacional da Rede Unida
v. 4, Suplemento 1 (2018). ISSN 2446-4813: Saúde em Redes
Última alteração: 2022-02-03
Resumo
Os encontros sempre iniciavam a partir de aquecimento corporal com música e então surgia a dança. Quando iniciava os encontros de outra forma, eles perguntavam: “Cadê a música?”. A fusão música e dança funcionava como a indicação do início do encontro. Chegado o momento em que todos dançavam, fechavam os olhos, encostavam-se, por vezes formando um amontoado de corpos ou dançavam de forma particular e individual. Os que acabavam de ser acolhidos pelo serviço também se identificavam com a forma como dançávamos na oficina: “O meu corpo ficou tão leve que eu não estava mais aqui com vocês, estava dançando na festa de quinze anos da minha filha. Sabe quanto tempo faz que eu não a vejo? Mais de cinco anos”. Era necessário a música para que os corpos ficassem disponíveis ao que estava por ser proposto ali, uma espécie de suspensão do aqui-agora como trilhas para um estado corporal outro, ainda indefinido. Tal sensação de leveza também foi descrita por Raul: “A cada oficina um cadeado diferente se abria”. Cassio complementa: “Antes eu tinha uma mochila que pesava muito. Vinha aqui e ela ficava mais leve”.
O inesperado era a quantidade de memórias e sentimentos que um possível desbloqueio corporal poderia desencadear. Em um determinado encontro, sobre as torturas vivenciadas na instituição, Jânio nos diz que o choque no pescoço só doía quando estavam molhados e que frequentemente, após serem espancados, eram colocados no “cantinho do pensamento” até as feridas cicatrizarem. Gael, 16 anos, nos mostra o tiro que levou no abdômem por um policial quando ainda em liberdade. Raul refere maxilar deslocado após agressão de educadores. Em contexto semelhante e outra instituição, Rosa chora por alguns minutos e fala espontaneamente sobre sua mãe, se retira da sala.
A presente pesquisa trata das ações de cuidado no âmbito da atenção psicossocial com os seguintes coletivos em situação de exclusão social na cidade de Macapá/AP: pessoas com problemas de saúde mental vinculados ao uso de álcool e/ou crack e em situação de rua; adolescentes institucionalizados em conflito com a lei; psicóticos graves institucionalizados e em privação de liberdade. Tais ações se estabeleceram a partir de oficinas de expressão corporal e intervenções artísticas realizadas entre 2014 e 2018, utilizando a dança e a performance, articuladas a uma práxis psicanalítica. Percebe-se um percurso indissociável que compreende o sujeito desde o corpo que o contorna e que também o constitui até a linguagem enquanto tecido que encobre a pele, envelope pulsional com memórias vívidas de suas inscrições primárias.
Ao colocar em foco a primeira experiência realizada no CAPS-AD, destaca-se um público específico que frequentava a instituição: Trata-se daqueles usuários que não se adequavam com facilidade às atividades propostas pela instituição e, mesmo em contextos grupais, muitas vezes apresentavam agitação psicomotora, não toleravam o tempo de espera da fala do outro para se manifestar, contorciam-se na cadeira, levantavam, entravam e saíam várias vezes da sala de grupo. No espaço destinado à palavra, era o espaço-tempo do corpo que os protagonizava. Através dos relatos dos técnicos das instituições nas quais se realizou a oficina posteriormente, percebeu-se o mesmo padrão de comportamento entre os adolescentes definidos pela equipe como problemáticos e os pacientes institucionalizados indicados como difíceis que residiam no Centro de Custódia e no Hospital Geral.
A partir desse endereçamento específico, agitação corporal, elaboraram-se intervenções através de exercícios de expressão corporal, jogos teatrais e sensibilização do corpo (olhar, tato, audição). Foi possível identificar o enunciado de corpos que poderiam ser escutados a partir de um outro tipo de contorno. O espaço para a palavra propriamente dita acontecia em um segundo momento, o primeiro momento era destinado ao encontro coletivo com a música, o movimento e a dança.
Através da música, denota-se aqui a operação do corpo colocado como fio condutor de um trajeto que movimenta posições ocupadas por esses sujeitos em espaços de amplo exercício de violência de Estado. Para alguns tratou-se de um trabalho anterior à palavra, pois colocava-se em questão a dimensão espaço-temporal do corpo. Encontros, movimentos e coreografias específicas, a captura de um rastro de singularidade que em determinado contexto desdobrou-se ao estatuto de performance.
Problematizou-se: De que forma a produção artística articulada a uma práxis psicanalítica pode desdobrar uma ação emancipatória com populações em contextos de exclusão no âmbito da atenção psicossocial? Objetiva-se, a partir da noção de corpolinguagem e pulsão invocante analisar a produção artística, dança e performance, como dispositivo emancipatório com populações em contextos de exclusão.
Para tanto, pretende-se analisar as experiências ocorridas entre 2014-2018 através da narrativa das oficinas em diferentes instituições de saúde mental e as intervenções performáticas do Circuito de Dionísio na cidade de Macapá/AP; Investigar o arcabouço teórico-conceitual psicanalítico sobre corpolinguagem e de pulsão invocante, articulados ao cuidado no âmbito da atenção psicossocial de populações em contextos de exclusão; Investigar a produção teórico-conceitual sobre a arte da performance e da dança e suas potencialidades para articulação a processos emancipatórios; Investigar as aproximações entre a práxis psicanalítica e a produção artística no contexto da performance e da dança, em uma articulação dialética para a construção do cuidado como produção de vida e cidadania no âmbito da saúde mental.
Ancorando-se nas noções de corpolinguagem, pulsão invocante e utilizando a narrativa como método para a presentificação em texto dessas experiências e estratégias de cuidado, propõe-se analisar de que forma as mesmas podem se desdobrar em práxis psicanalítica e ação emancipatória com populações em contextos de exclusão no âmbito da atenção psicossocial. A aposta metodológica, então, é habitar narrativamente a experiência enquanto objeto de investigação.
Ao narrar a sua história, o sujeito produz um fragmento de verdade e a resguarda enquanto ficção. Uma proposta metodológica que inclui a experiência narrativa levanta a possibilidade de historicização de uma clínica através das cenas descritas, o que contrapõe a verificação da fidedignidade da realidade ali apresentada. Propõe-se através da experiência narrativa benjaminiana, uma escrita que ao retornar às cenas e aos fragmentos de falas, nos traz a construção de memórias de uma clínica, invenção de uma verdade transitória. No nosso caso, memórias de uma construção artística coletiva. Um dos atores descreveu o Ninho do Gozo, um dos roteiros realizados em 2014 no CAPS-AD através de um poema: “Vejo corpos que dançam que se vestem e se lançam. Em conjunto com o calor se amam, os movimentos externam a sensação que geram, linguagem divina alcançam. Os corpos que a outros falam convidam a um profundo encanto. Estilhaçando. Se jogando. Liberdade de um alto querer, corpos que suam no esforço não se machucam no espaço. E para isso, dançam”.
Enquanto trapos e restos disponho de textos-poesias e fanzines, fotografias e vídeos registrados por coletivos diversos e os meus diários de campo que enunciam os fragmentos que serão utilizados para a invenção da narrativa. Se o trabalho de análise se constrói a partir das reminiscências do analisando, a investigação em psicanálise pode construir-se a partir das memórias da clínica. Para tal descrição, recortes de cenas, falas e manifestações dos participantes, acolhemos a narrativa como forma de sistematização que não sutura o fluxo livre da cadeia associativa regida pelas leis do significante, mas mergulha nela enquanto condição do método. A partir desse material vivo, inicia-se então a investigação teórico-conceitual que se propõe nessa pesquisa.